O Lixo que Engole o Mar: A Crise Ambiental nas Águas Cariocas

Sob o sol escaldante de novembro, as praias do Rio de Janeiro, cartão-postal mundial, escondem um drama silencioso. Ondas que deveriam acariciar banhistas e surfistas trazem, em vez disso, um fluxo incessante de plásticos, garrafas e resíduos que transformam o paraíso em um lixão a céu aberto. Na Baía de Guanabara, epicentro da poluição, tartarugas marinhas nadam entre plásticos descartados, enquanto pescadores como Paulo Santana, da Associação dos Pescadores de Mangaratiba, relatam uma “garimpagem diária” para capturar peixes em meio ao entulho flutuante. “O impacto é gritante. Está aniquilando a pesca artesanal”, desabafa ele.

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A poluição por lixo nos mares do Rio não é apenas uma mancha visual: é uma ameaça existencial. Diariamente, cerca de 190 toneladas de resíduos sólidos urbanos são despejadas nos rios e litoral carioca, contribuindo para as duas milhões de toneladas anuais que contaminam os oceanos brasileiros.

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Plásticos representam 48,5% desses itens, formando um “tsunami de plástico” que sufoca a biodiversidade e entra na cadeia alimentar humana.

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Três bacias hidrográficas fluminenses – Baía de Sepetiba, foz do Rio Paraíba do Sul e Baía de Guanabara – figuram entre os dez pontos costeiros com maior risco de vazamento de lixo plástico para o oceano no Brasil, com estimativas de 216 mil toneladas anuais só na região da Guanabara.

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As Raízes do Problema: De Rios a OceanosO caminho do lixo até o mar carioca começa na terra firme. Com 16 milhões de habitantes em 92 municípios, o estado do Rio produz 17 mil toneladas de resíduos por dia, mas apenas 3% são reciclados, segundo o Plano Estadual de Resíduos Sólidos (PERS/RJ).

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Rios como o Carioca e canais de drenagem urbana atuam como veias poluídas, carregando plásticos, esgotos e metais pesados diretamente para as águas salgadas. Na Baía de Guanabara, o acúmulo é alarmante: ilhas de lixo como a de Pombeba, um “ímã de resíduos” impulsionado por marés e correntes, acumulam toneladas de detritos, incluindo barcos abandonados e animais mortos, como tartarugas.

Especialistas apontam fontes múltiplas: ocupações irregulares próximas a rios, falhas em sistemas de drenagem e descarte inadequado na orla das praias. Embarcações – de veleiros a navios turísticos – agravam o quadro, jogando resíduos diretamente no mar.

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O esgoto in natura, despejado sem tratamento em 83,1% dos casos no Brasil, completa o ciclo: praias como Barra da Tijuca e partes da Guanabara são consideradas impróprias para banho, com metais pesados como mercúrio e chumbo contaminando peixes e algas, que voltam à mesa dos cariocas.

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Principais Fontes de Lixo nos Mares do Rio
Impactos Observados
Rios e canais de drenagem urbana (80% dos resíduos continentais)
Eutrofização (crescimento excessivo de algas), morte de peixes e aves marinhas
Descarte na orla e praias
Contaminação de recifes de corais, prejuízo ao turismo (R$ 167 bilhões anuais no Brasil)
Embarcações e atividades industriais
Acúmulo de plásticos e metais pesados na cadeia alimentar, riscos à saúde humana
Esgoto não tratado
Doenças em comunidades pesqueiras, redução de 80% na pesca artesanal em áreas como Mangaratiba

Dados compilados de estudos da Rede Oceano Limpo e Abrelpe.

Impactos: Um Ecossistema em ColapsoO prejuízo vai além do visual. Substâncias tóxicas nos plásticos liberam poluentes que se acumulam em organismos marinhos, afetando desde plâncton até predadores como golfinhos e humanos. No Rio, a contaminação ameaça US$ 100 bilhões anuais em setores como pesca, turismo e aquicultura até 2040.

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Pescadores quilombolas e caiçaras, dependentes do mar para subsistência, enfrentam o colapso: “A rede vem com muito lixo”, descreve Santana.

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Nas redes sociais, o alerta ecoa. Em fevereiro de 2025, o deputado Carlos Minc destacou a volta de tartarugas à Baía de Guanabara graças a ações passadas, como o fechamento de lixões como Gramacho e TACs contra poluidoras como a Refinaria Duque de Caxias (Reduc), que reduziu 80% de suas emissões.

No entanto, incidentes recentes, como o estouro de uma galeria de esgoto em Copacabana em dezembro de 2024, revelam a fragilidade: praias fechadas, saúde pública em risco e um lembrete de que a herança de anos sem investimentos persiste.

@minc_rj

Esperança nas Ações: De Redes a Leis LocaisDiante da crise, o Rio avança em frentes coletivas. A Rede Oceano Limpo-RJ, lançada em 2022 com apoio do TAC Almoxarifados Submarinos (R$ 20 milhões até 2025), articulou mais de 180 atores para entregar, em maio de 2024, o dossiê “Recomendações para a Estratégia Estadual de Enfrentamento ao Lixo no Mar”. O documento, com 32 ações em seis eixos – de monitoramento a economia circular –, foi recebido pelo governo estadual, que criou o Grupo de Trabalho Lixo no Mar (GT Lixo no Mar) em outubro de 2023.

“É o primeiro plano sistematizado para o estado”, celebra Jemilli Viaggi, gestora da rede.

oeco.org.br

Iniciativas locais ganham tração. Em fevereiro de 2025, pescadores e velejadoras como Martine Grael, bicampeã olímpica, recolheram toneladas na Ilha de Pombeba, impulsionando debates sobre a candidatura do Rio aos Jogos Pan-Americanos de 2031, que promete acelerar a despoluição.

oglobo.globo.com

O Projeto Lixômetro, do Instituto Mar Adentro, monitora resíduos nas praias desde 2022, sensibilizando via dados abertos.

ilhasdorio.org.br

Em agosto, a Câmara Municipal aprovou o Programa Praia Limpa é Lixo Zero, que proíbe plásticos descartáveis e incentiva reciclagem, com placas de alerta instaladas em novembro.

O Marco Legal do Saneamento (2020) e a privatização da Cedae (2021) injetaram dinamismo: investimentos privados triplicaram estações de tratamento, devolvendo transparência às águas e atraindo vida marinha de volta.

@mauad_joao

Projetos inovadores, como o Ecoboat – barco coletor que atuou no Porto do Rio desde 2016 – e bioplásticos da UFRJ apresentados no Green Rio 2025, mostram caminhos sustentáveis.

Um Chamado à Ação: O Mar Pede SocorroA meta é clara: até 2030, 90% de saneamento na região metropolitana, alinhada ao ODS 14 da ONU para reduzir poluição marinha em 2025.

Mas o sucesso depende de todos. “Não importa se você mora perto ou longe do mar, seu lixo pode chegar lá”, alerta relatório da ONU.

aguasustentavel.org.br

Reduza, recicle e cobre: participe de mutirões, apoie leis como a Praia Limpa e pressione por investimentos. O Rio, com suas águas revigoradas e tartarugas nadando livres, prova que a recuperação é possível – mas urgente.

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